Sweet golden Road foi uma das primeiras canções feitas na segunda leva de músicas da banda. Se as primeiras eram mais influenciadas pelo blues-rock setentista e serviram não só como uma fase de entrosamento entre os músicos, mas também como um cartão de visita nos primeiros shows do Ram, essa segunda leva de composições tentava ser mais eclética.
Eu começava a me interessar muito pelo soul (da Motown clássica e seus derivados pop dos anos 70) e os primeiros experimentos na área mesclavam motivos básicos do estilo – como o intervalo do riff principal da faixa – e um então novo trabalho harmônico para mim com o estilo em desenvolvimento dos arranjos do Ram. O título surgiu de uma preocupação com a sonoridade das três palavras em seqüência e a letra atualiza e universaliza o lamento dos antigos Standards do soul, ligados à melodia vocal, meio doo-wop.
Recentemente, a faixa ganhou um video clip, produzido por Arthur B. Senra eGabriel Caram, da 27frames (aqui http://migre.me/5XOH0)
Segue a primeira e antiga demo caseira da canção!
Maccaram veio de um riff antigo – de antes do Ram - que eu intentava emendar em algum final de canção folk, subindo o clima, do violão para um rock pesado. Inicialmente seria num baixo distorcido, algo como Spanish boots, do Jeff Beck group.
Tempos depois, numa entre safra de produção do Ram, eu apresentei o tema ao baterista em um ensaio em que só nós dois comparecemos. Na mesma semana, um incidente numa manhã pós festa no meu apartamento deu o nome à faixa.
Eu andava ouvindo muito o disco Bitches brew, de Miles Davis e na procura por um novo direcionamento sonoro do Ram, fomos dando outra cara à faixa. Na mesma época, fomos apresentados a dois músicos, o saxofonista Francisco Cesar Leandro Araujo e o tecladista Alexandre De Castro Fonseca e os convidamos para uma sessão livre de improviso no estúdio, da qual tiramos essa gravação – de 30 minutos gravados, editei pra 6.
Ao vivo, MaccaRam foi responsável por dar à banda a pecha de kraut-psicodelico-viajandão-frito por um bom tempo. Nos shows, o improviso sobre o tema já chegou a 40 minutos e sempre conta com músicos convidados (e de vez em quando, não convidados que invadiam o palco pra tocar).
Já participaram de MaccaRam integrantes do Fusile, Graveola E O Lixo, Dibigode Instrumental, Paquiderme Escarlate e vários outros artistas.
A letra da bluesy country/hard Bullet proof tem referências a Clarice Lispector e ao Pequeno Príncipe. Já a bluesy The White rat and improvised hit tem versos inspirados no filme The Sting. E To… é uma das poucas letra feitas a partir de relacionamentos afeitvos. Pretendia ser uma carta de alforria via música, mas foi frustrada. Você confere as três e mais My old man em um medley acústico que oRam apresentou na Rádio UFMG Educativa.
Oracle tem outra das minhas letras preferidas. Sintética, acho que expõe bem uma condição criada pelas relações sociais que está mais do que explorada atualmente. Dotada de certa ironia e a costumeira desilusão esperançosa. Falo de mim e para mim, ao mesmo tempo em que para todos.
E é um exemplo de como uma composição propõe idéias múltiplas e as canções vão se transformando com o tempo. O riff inicialmente intentava soar como aquelas sombrias harmonias (vocais e guitarrísticas) do Alice In Chains. Depois vem um rock vigoroso (como os que eu compunha muito logo antes do surgimento do Ram, com refrão dançante, melodia ascendente, vocais agudos). E a falta de um final fechado foi resolvida com a mudança do clima o fim inesperado num free jazz pesado. Com o tempo, em contato com o kraut rock, o trip-hop e o minimal, enxerguei outras soluções pra mesma melodia do riff.
Segue uma experiência antiga, feita em estúdio, que acabou ficando de fora do álbum!
My old man foi composta enquanto eu brincava com as sensações geradas a partir de duas seqüências comuns na música pop: o ré seguido de lá e de mi; e dó sustenido menor seguido de lá. A letra aborda um tema recorrente no disco: o peso dos valores e costumes sociais com os quais se depara em certo estágio da vida e a tentativa de desapego dos mesmos e o papel paterno em frente a isso. Foi uma das primeiras canções compostas pelo Ram e o arranjo despojado deu à faixa uma onda meio blues/meio grunge. Começa com a frase de uma peça do musical Hair: “Where do I go?”
Aí segue a canção abrindo um dos primeiros shows da história da banda, no Grito rock de Sabará em 2008, realizado pelo Coletivo Fórceps.
Routine surgiu no turbilhão de composições da minha empolgada safra de canções feitas assim que o Ram foi montado. Passou a ser uma das mais queridas do público e por isso foi incorporada ao repertório. Não era a intenção, já que se trata de um trabalho praticamente solo – minha idéia no inicio era desenvolver com a banda somente coisas em que todos tocassem. A letra fala de uma manhã entediada e preguiçosa que ilustra um distanciamento entre alguém em busca de um contato com as coisas que dependa do tempo natural dessas e a obsessão tecnocrática e superficial que rege as relações. Routine ganhou um clip (http://migre.me/5Xiso), uma animação de Jackson Abacatu que, acho que, involuntariamente, apresentou outra e interessante leitura da letra. O vídeo já rodou mais de 10 festivais de cinema pelo país.
Eis a primeira gravação de Routine, sussurrada num mp3, já que era madrugada no apartamento.
We are lost (in Escher´s house)
Foi uma das primeiras composições da banda. Surgiu de uma brincadeira com motivos harmônicos do blues no violão. Feita numa época em que eu voltava, depois de muito tempo, a ouvir bandas européias influenciadas pelo blues urbano, como Free, Humble Pie e Taste. A letra levanta questões esparsas que circulam a idéia do título, por sua vez inspirado em uma obra do artista M.C. Escher chamada Relativity, – entenda lendo a letra e vendo o quadro. A letra contém ainda versos que vieram a se tornar marcas da postura e mensagem central da banda como “Insanity fits you well after you tasted the obvious” e “I don´t care about your values, neither If I polish your shoes”.
Aqui apresentamos uma gravação acústica ao vivo para a Rádio UFMG Educativa.
We are lost integra Orange Orgio Orbis, disco de estréia do Ram, que sai dia 1/11/11 com show na sala Juvenal Dias, Palácio das Artes.
LONELY ONES
Em determinada época, discos de gente como Crosby,Stills, Nash and Young, Peter, Paul and Mary, Simon and Garfunkel, Mamas and Papas, Buffalo Springfield, Grateful dead, Byrds e outros passavam longos tempos no meu toca-discos. Passei a estudar as harmonias vocais usadas nesses grupos de country/folk/rock e Lonely ones foi uma das primeiras que me arrisquei a tocar com o Ram, já que dispúnhamos de mais gente cantando bem na banda. Ao vivo a canção é executada de forma minimalista, com violão, slide e meia lua. Nos arranjos para a gravação procurei remeter a coisas dos anos 60, com bateria bem simples, longas passagens instrumentais e guitarra de 12 cordas. A letra é uma das minhas prediletas, casa bem com a melodia repetitiva, como uma marcha. Fala de uma solidão constatada a partir da ilusão de se fazer parte de uma sociedade, apenas por compartilhar objetivos e comportamentos, mas que vem mesmo de uma esterilidade e automatismos culturais, pouco humanos.
Confiram Lonely Ones em um vídeo de um dos primeiros ensaios da canção, presente no 1o disco do Ram, que será lançado dia 1/11/11 na sala Juvenal Dias, Palácio das Artes.

